Levantamento aponta que os valores diários de poluentes são “extremamente elevados” e contribuíram para aumentar em até duas vezes o risco de hospitalização por “doenças respiratórias atribuíveis à concentração de partículas respiráveis e inaláveis finas (fumaça)” nos cinco estados analisados. Gado pasta em meio à fumaça causada por um foco de queimada da Amazônia em Rio Pardo, Rondônia, em setembro de 2019.
Ricardo Moraes/Reuters
Uma nota técnica assinada da Fiocruz e da WWF-Brasil aponta que as queimadas na Amazônia aumentam os problemas respiratórios e elevam os gastos do sistema de saúde. O levantamento aponta que em um período de dez anos, entre 2010 e 2020, os estados com mais focos de incêndio (Pará, Mato Grosso, Rondônia, Amazonas e Acre) tiveram internações associadas ao problema que custaram quase 1 bilhão aos cofres públicos.
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De acordo com o estudo, os valores diários de poluentes são “extremamente elevados” e contribuíram para aumentar em até duas vezes o risco de hospitalização por “doenças respiratórias atribuíveis à concentração de partículas respiráveis e inaláveis finas (fumaça)” nos cinco estados analisados.
“No Amazonas, 87% das internações hospitalares no período analisado estão relacionadas às altas concentrações de fumaça (partículas respiráveis e inaláveis). O percentual foi de 68% no Pará, de 70% em Mato Grosso e de 70% em Rondônia”, aponta a nota técnica.
Metodologia
Os pesquisadores analisaram a relação das tendências da taxa de internações registradas em hospitais (morbidade hospitalar) por doenças do aparelho respiratório e as concentrações estimadas de emissões de partículas respiráveis finas (PM2,5), presentes na fumaça de incêndios florestais no mesmo período.
A investigação considerou os potenciais impactos à saúde nos estados com os maiores registros de focos de calor provenientes das queimadas na Amazônia Brasileira, segundo o Inpe.
Além disso, o estudo observou as séries temporais diárias de morbidade hospitalar por doenças do aparelho respiratório obtidas no Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), pelo Sistema de Informação sobre internação hospitalar (SIH) e analisados por dia, mês e ano no período de 1º de janeiro de 2010 a 31 de outubro de 2020, segundo a unidade de federação de residência.
As internações hospitalares por doenças respiratórias relacionadas à Covid-19 para cálculo da tendência retrospectiva foram excluídas.
A pesquisadora Sandra Hacon, da Ensp/Fiocruz, afirma que, embora os percentuais de internação hospitalar por doenças respiratórias na região tenham se mantido estáveis entre 2010 e 2020, uma parte considerável dessas internações podem ser atribuídas às concentrações de partículas respiráveis finas e inaláveis emitidas por incêndios florestais.
“As micropartículas que compõem a fumaça ficam depositadas nas cavidades dos pulmões, agravando os problemas respiratórios. Elas são um fator de risco para pessoas que já possuem comorbidades. – Sandra Hacon, da Ensp/Fiocruz
Para chegar ao valor do custo, os pesquisadores selecionaram informações referentes ao valor em reais (R$) gasto com as hospitalizações por doenças do aparelho respiratório.
“As queimadas fazem parte da dinâmica de destruição da Amazônia. As áreas desmatadas são posteriormente queimadas para “limpar” o terreno, abrindo espaço para a pastagem, a agricultura, ou a simples especulação fundiária. A associação entre o desmatamento, queimadas e degradação da floresta traz um custo muito alto para todos nós, especialmente para os povos da floresta, e para o clima do planeta” – Edegar de Oliveira, diretor de Conservação e Restauração do WWF-Brasil
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