O ano também teve o mês mais quente da história e a maior temporada de furacões no Atlântico nos últimos anos. O ano de 2020 no meio ambiente foi marcado por incêndios florestais no Brasil , Austrália e Estados Unidos, desmatamento na Amazônia e ondas recordes de calor. O ano também teve declarações do Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e por denúncias de desmantelamento nas ações do Ibama.
Relembre em 9 pontos os eventos que marcaram o ano no meio ambiente:
Incêndios florestais na Austrália e Estados Unidos
Pantanal em chamas
Desmatamento acima da média na Amazônia
O mês mais quente da História
Tempestades no Sudeste
Maior temporada de furacões no Atlântico
Ministro sugere ‘passar a boiada’
Paralisação do Fundo Amazônia
Desmonte e cortes no Ibama
Fiscalizações e multas ambientais despencaram
Conama tenta avançar sobre restinga e manguezais
Cinco anos do Acordo de Paris; meta brasileira prevê aumento da poluição atmosférica
Incêndios florestais na Austrália e Estados Unidos
4 de janeiro – Foto de longa exposição mostra um carro passando por uma estrada com o céu fica vermelho de fumaça do incêndio nos arredores de Cooma, na Austrália. Até 3 mil reservistas militares foram convocados para enfrentar a crise de incêndios no país
Saeed Khan/AFP
O ano de começou com incêndios florestais sem precedentes na Austrália. De acordo com um relatório divulgado em julho por universidades australianas, o fogo que atingiu o país em janeiro matou ou desalojou quase 3 bilhões de animais, sendo 143 milhões de mamíferos, 2,46 bilhões de répteis, 180 milhões de pássaros e 51 milhões de batráquios. Em alguns locais, casas e bairros inteiros foram queimados. Ambientalistas consideram esse um dos piores desastres para a fauna na história moderna.
Em agosto, os incêndios florestais também castigaram a Costa Oeste dos Estados Unidos. Quase 4 mil imóveis foram destruídos em apenas 3 semanas e pelo menos 28 pessoas morreram.
Casa em chamas na cidade de Vacaville, na Califórnia, em 19 de agosto de 2020
Stephen Lam/Reuters
Em ambos os casos, as causas dos incêndios foram a combinação de temperaturas altas, clima seco e ventos fortes, que espalharam o fogo pela vegetação seca.
Pantanal em chamas
5 pontos sobre as queimadas no Pantanal
Outra região castigada pelo fogo em 2020 foi o Pantanal mato-grossense, que teve o seu pior ano em termos de queimadas desde que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) começou o monitoramento, em 1998. O fogo consumiu mais de 20% de todo o bioma, destruindo o equivalente a mais de 10 vezes as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo juntas. O projeto Bichos do Pantanal estima que entre 30% e 35% das espécies de flora e cerca de 20% de mamíferos foram atingidos.
Diferente dos EUA e da Austrália, especialistas explicaram à época que os incêndios no bioma brasileiro tiveram motivação criminosa, e não apenas ambiental. Mas não é possível descartar o fato de que o Pantanal teve uma seca histórica em 2020 – a maior em 47 anos – que contribuiu para o alastramento das chamas.
Desmatamento acima da média na Amazônia
A taxa de desmatamento na Amazônia divulgada pelo em dezembro foi mais de três vezes superior à meta apresentada pelo Brasil à Convenção do Clima na conferência de 2009, em Copenhague, para 2020. Foram 11.088 km² de área perdida no bioma, mas o objetivo era chegar perto de 3 mil km².
O desmatamento da atual temporada, de mais de 11 mil km², é o maior área desde 2008, quando o Prodes apontou 12.911 km² desmatados. O Pará concentra quase metade do desmatamento na atual temporada.
Desmatamento na Amazônia: área derrubada é a maior em 10 anos para meses de novembro
O mês mais quente da História
Setembro de 2020 foi o mês mais quente já registrado, com temperaturas excepcionalmente altas na Sibéria, no Oriente Médio e em partes da América do Sul e da Austrália, segundo o Serviço de Mudança Climática Copernicus (C3S) da União Europeia.
Globalmente, setembro de 2020 foi 0,05ºC mais quente do que o mesmo mês em 2019 e 0,08ºC mais quente que em 2016, anos que tinham os dois maiores recordes já registrados, mostraram os dados do Copernicus.
Os efeitos foram sentidos no Ártico também. O gelo marinho na região encolheu até sua segunda menor extensão já registrada em setembro.
Resultado de uma tendência de aquecimento de longo prazo causada pelas emissões de gases que retêm o calor, as altas temperaturas neste ano tiveram grande influência em eventos como os incêndios na Califórnia, e inundações na Ásia, de acordo os cientistas.
Tempestades no Sudeste
O meio ambiente em 2020 não foi marcado somente pelo fogo, mas também pelas inundações e chuvas fortes.
Morro São Bento em Santos, na tarde desta quinta-feira (5), após dois dias do deslizamento
Felixx Drone
No Brasil, a capital de São Paulo teve o maior volume de água registrado no intervalo de 24 horas para um mês de fevereiro em 37 anos. Devido ao transbordamento dos rios e córregos e deslizamentos, a cidade decretou estado de calamidade. Pelo menos 182 desabamentos ocorreram em um único dia.
A Baixada Santista, no litoral paulista, também bateu recorde histórico em volume de chuvas no mês de fevereiro. Em março, a região sofreu novas chuvas fortes e pelo menos 18 pessoas morreram em deslizamentos.
Chuva provoca deslizamentos na grande São Paulo; Osasco decreta estado de calamidade
Maior temporada de furacões no Atlântico
A temporada de furacões no Atlântico também bateu recordes este ano, com 30 tempestades nomeadas, 12 das quais atingiram os Estados Unidos. Cinco ciclones tropicais simultaneamente ativos foram detectados no oceano Atlântico.
A última vez que um fenômeno semelhante ocorreu foi em 1971, quando o mesmo número de tempestades tropicais foi registrado no Atlântico ao mesmo tempo.
Moradores removem destroços de suas casas destruídas pela passagem do furacão Iota em Puerto Cabezas, na Nicarágua, no dia 17 de outubro de 2020
Oswaldo Rivas/Reuters
‘Passar a boiada’
No âmbito da política ambiental brasileira, o ano foi marcado por uma fala do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, “passar a boiada”.
Durante uma reunião ministerial em de abril, Salles afirmou aos ministros e ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) que o governo deveria aproveitar a pandemia, em que o foco da sociedade e da mídia está voltada para o coronavírus, para mudar regras que podem ser questionadas na Justiça.
“”(..,) precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de COVID e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas. De IPHAN, de ministério da Agricultura, de ministério de Meio Ambiente, de ministério disso, de ministério daquilo. Agora é hora de unir esforços pra dar de baciada a simplificação, é de regulatório que nós precisamos, em todos os aspectos.” – Ricardo Salles
Salles sugere usar pandemia para fazer mudanças na área ambiental: ‘Ir passando a boiada’
No fim de agosto, a Procuradoria-Geral da República (PGR) arquivou uma apuração preliminar sobre a conduta do ministro durante a reunião ministerial de abril. Na avaliação da PGR, Salles apenas “externou sua posição” sobre as diretrizes para políticas públicas do atual governo.
Paralisação do Fundo Amazônia
Em outubro, a rede Observatório do Clima denunciou ao Supremo Tribunal Federal (STF) durante uma audiência pública que o Fundo Amazônia, que capta doações para projetos de preservação e fiscalização do bioma, tem cerca de R$ 2,9 bilhões parados.
uma ação de partidos de oposição, que apontam omissão da União ao não executar a verba doada pelos países europeus ao Fundo Amazônia. Eles pediram a retomada imediata das atividades do órgão.
A paralisação do Fundo Amazônia ocorreu ainda em 2019, quando Salles tentou mudar as regras do órgão, o que levou à retirada de financiamento dos principais apoiadores – Noruega suspendeu repasses de R$ 133 milhões e a Alemanha anunciou corte que poderia chegar a R$ 155 milhões. A proposta de Salles era usar os recursos do fundo para indenizar proprietários de terras.
Mourão tira Salles do Fundo da Amazônia para recuperar doações da Noruega e Alemanha
Desmonte e cortes no Ibama
Em agosto, mais de 400 servidores do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) divulgaram uma carta aberta ao presidente do órgão alertando que a queda de 24% no número de fiscais do órgão entre 2018 e 2019, apontavam “para o colapso da gestão ambiental federal e estimulam o cometimento de crimes ambientais dentro e fora da Amazônia”.
Outro ponto do documento pedia a garantia de recursos para as atividades de prevenção e combate aos incêndios florestais, especialmente após a paralisação dos repasses financeiros do Fundo Amazônia.
‘Dinheiro não está caindo na conta do Ibama’, diz Eduardo Bim sobre repasses do Governo
O presidente do Ibama, Eduardo Bim, disse à GloboNews que o órgão enfrenta problemas financeiros que impedem o cumprimento de compromissos em 2020. Segundo ele, os pagamentos pendentes são da ordem de R$ 19 milhões.
Fiscalizações e multas ambientais despencaram
Uma auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU) mostrou que, de janeiro a agosto deste ano, os julgamentos de autos de infração do Ibama caíram quase 90% em comparação com o mesmo período do ano passado. Já o número de processos de infrações ambientais concluídos pelo órgão foi reduzido em 88% quando comparado com o mesmo período em 2019.
Considerando apenas a Amazônia Legal, entre as 938 autuações aplicadas em 2020 pelo, apenas três multas por desmatamento haviam sido quitadas até outubro deste ano.
Servidores do Ibama disseram ao MPF que o governo federal vem desmontando a fiscalização
Restinga e manguezais sob a mira da destruição
Em setembro, o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), principal órgão consultivo do Ministério do Meio Ambiente e presidido por Ricardo Salles, derrubou duas resoluções que restringiam o desmatamento e a ocupação em áreas de preservação ambiental de vegetação nativa, como restingas e manguezais.
As deliberações do Conama estão sendo debatidas em processos no STF desde outubro, que foram suspensas pela ministra Rosa Weber.
Biólogos maranhenses reagem contra decisão do CONAMA
Cinco anos do Acordo de Paris; meta brasileira prevê aumento da poluição
Em dezembro, quando o Acordo de Paris completou cinco anos, todos os países signatários apresentaram novas versões dos compromissos já assumidos em 2015. A nova meta climática apresentada pelo Brasil ao Acordo foi criticada por ambientalistas, que apontaram que a nova versão permitirá ao país chegar a 2030 emitindo 400 milhões de toneladas de gases do efeito estufa a mais do que o previsto na meta original.
Outra ambição apresentada por Salles na terça foi a de neutralizar as emissões de gases causadores do efeito estufa até 2060. Esta não é uma meta, mas um indicativo feito pelo governo brasileiro.
O Observatório do Clima destacou que a ambição é dez anos mais longa que a meta da maioria dos países do Acordo, que devem zerar o saldo de emissões de gás carbônico em 2050. Além disso, a entidade lembrou que somente a China apresentou meta igual à brasileira.
Brasil fica fora dos discursos da cúpula do Acordo de Paris
VÍDEOS: Desafio Natureza