Existem paixões que resistem ao tempo justamente porque carregam memória, história e um sentido de pertencimento que vai além do objeto em si. É esse tipo de vínculo que move colecionadores de veículos antigos, como Mário Augusto de Castro, para quem um carro antigo nunca é apenas um veículo, mas um pedaço preservado de uma época, de uma família ou de uma trajetória pessoal. O Brasil vive um momento de expansão dessa cultura. Segundo levantamento da JDA Research, o país reúne cerca de 1,2 milhão de colecionadores e mais de 3 milhões de veículos históricos, distribuídos em torno de 400 clubes espalhados por diferentes regiões.
Esse universo movimenta, em média, dezenas de bilhões de reais por ano entre restauração, peças, manutenção e eventos, um mercado que cresceu de forma consistente na última década. Quer saber mais? Confira a seguir!
Uma tradição que ganhou força nas últimas décadas
O antigomobilismo, como é chamado esse hobby no Brasil, começou a se organizar como movimento a partir da década de 1970, quando carros considerados obsoletos passaram a ser enxergados como peças de valor histórico e cultural. Desde então, encontros regionais, federações e clubes especializados se multiplicaram pelo país, criando uma rede de trocas entre colecionadores que vai muito além da simples posse de um veículo raro. Pesquisas do setor mostram que o colecionador médio permanece com seu carro antigo por cerca de onze anos e costuma frequentar regularmente encontros e exposições dedicados ao tema. Mais do que velocidade ou desempenho, o que move esse público é o cuidado com a originalidade, a busca por peças fiéis ao período do veículo e o desejo de manter viva uma parte da história do automóvel no Brasil.
Para colecionadores como Mário Augusto de Castro, a experiência de restaurar e manter um veículo antigo tem menos a ver com ostentação e mais com memória afetiva. Muitos desses carros remetem a uma infância, a um parente ou a um momento específico da história do país, o que explica por que boa parte dos colecionadores dedica anos, e não raro décadas, ao mesmo veículo. Esse cuidado também aparece nos números: a média de gastos anuais de um proprietário de carro antigo no Brasil ultrapassa a casa dos vinte mil reais, considerando manutenção, peças e participação em eventos. Nesse sentido, trata-se de um investimento que, mais do que financeiro, é sobretudo de tempo e dedicação para manter viva a autenticidade de cada veículo.
Duas paixões, uma mesma lógica de pertencimento
Há uma semelhança interessante entre o universo do antigomobilismo e o da torcida por um clube de futebol centenário. Assim como Mário Augusto de Castro dedica atenção aos detalhes de cada carro que colecionava, sua torcida pelo Flamengo carrega o mesmo tipo de vínculo com tradição e continuidade. Fundado em 15 de novembro de 1895, o clube rubro-negro acumula mais de 80 títulos oficiais ao longo de sua história, entre conquistas nacionais, internacionais e estaduais.

Recentemente, o Flamengo conquistou a Copa Libertadores e o Campeonato Brasileiro de 2025, além do quadragésimo título do Campeonato Carioca, em março de 2026, consolidando sua posição como um dos clubes mais vencedores da América do Sul. Para torcedores de longa data, esse tipo de conquista reforça um sentimento que já vem de gerações anteriores, algo que também se observa entre colecionadores que herdaram de familiares o gosto por carros antigos.
Encontros que unem gerações diferentes
Um dos aspectos mais marcantes do antigomobilismo é justamente sua capacidade de aproximar públicos de diferentes idades. Pesquisas do setor indicam que a média etária dos colecionadores brasileiros gira em torno de 52 anos, mas o interesse de públicos mais jovens tem crescido nos últimos anos, especialmente entre quem busca veículos antigos para uso no dia a dia, e não apenas para exposição em encontros. Esses eventos, realizados em praticamente todos os estados brasileiros, funcionam como pontos de encontro entre apaixonados por história automotiva, restauração e preservação. Da mesma forma que uma torcida organizada reúne gerações em torno de um mesmo time (no caso de Mário Augusto de Castro, o Flamengo), os encontros de carros antigos aproximam avós, filhos e netos em torno de uma mesma paixão por preservar peças que contam a história do país sobre rodas.
Paixões que atravessam o tempo
No fim, tanto o cuidado com um veículo antigo quanto a torcida por um clube centenário falam sobre a mesma coisa: o desejo de manter viva uma história que é maior do que qualquer indivíduo isoladamente. É esse tipo de vínculo que explica por que colecionadores dedicam tanto tempo à restauração de seus veículos e por que torcedores atravessam décadas acompanhando o mesmo time, independentemente dos resultados de cada temporada. Para quem, como Mário Augusto de Castro, vive essas duas paixões lado a lado, carros antigos e futebol deixam de ser apenas hobbies isolados e passam a compor uma mesma forma de se relacionar com o tempo, a memória e a ideia de pertencimento a algo maior do que o presente.
Seja em uma garagem dedicada à restauração de um veículo raro, seja em uma arquibancada lotada em dia de clássico, o que une essas duas experiências é a disposição de investir tempo, atenção e afeto em algo que ultrapassa gerações. Seja pelo motor de um carro antigo ou pelo hino cantado antes de uma partida, trata-se sempre da mesma busca por manter viva uma história que também é, de certa forma, parte da própria identidade de quem a preserva.